Agências são de Marte, Tradutores são de Vênus
By
Fabiano Cid,
Managing Director,
Ccaps Translation and Localization,
Rio de Janeiro, Brazil
fcid@ccaps.net
www.ccaps.net
Get the List of 5,400+ Translation Agencies Now! No Recurring Membership Fees!
English
Version
O subtítulo do livro que inspirou a frase acima poderia nomear o manual
de sobrevivência de qualquer gerente de projeto
que conheço: "Um guia prático para
melhorar a comunicação e conseguir o que
você quer nos seus relacionamentos". Mas
o que querem as agências de tradução,
e quanto os tradutores estão dispostos a oferecer?
Até que ponto os tradutores precisam se esforçar
para agradar as agências sem saírem melindrados?
É claro que não tenho as respostas, mas
após ter passado outros quatro anos do lado de
cá do processo, acho que começo a compreender
um pouco melhor esse microcosmo. E embora habite hoje
o Planeta Vermelho, este artigo é mais direcionado
aos venusianos, que para sempre serão meus patrícios.
Nestes tempos em que o ofício tem sido bastante (e novamente) discutido,
não restam mais dúvidas que "de
tradutor e louco, todo mundo tem um pouco". Bastam
algunas nociones d'español, um cursinho de
inglês em Boston, apprendere carcamano com gli
novelle de Globo... Et voilà: mais um metendo
a língua onde não devia. A um sem número
destes acima, juntam-se os profissionais cansados,
já sem força, dinheiro ou paciência
para se atualizar; localizadores que se julgam infalíveis
por saberem de cor os manuais de estilo da Microsoft
(dos tempos do Windows 95); revisores que não
deixam passar uma vírgula sequer antes de etc.
mas que entregam um texto impecavelmente incompreensível;
e tradutores que vêem o original como Carta
Magna e não ousam duvidar de redatores incompetentes.
E, por último, mas não menos importantes
ou numerosos, o tradutour (indivíduo que está
na profissão a passeio) e a tradutoura (donzela
sempre quase pronta para exercer o ofício por
completo).
Mas como você pode se destacar dos demais quando não
há ainda mecanismos de qualificação
abrangentes, certificações amplamente
reconhecidas pelo mercado, ou critérios de
avaliação padronizados e aceitos?1 Como convencer
seu cliente em potencial (ou gerente de projeto, neste
caso) que você deve ser separado do joio; cada
dia mais disfarçado de trigo? Deve existir
uma maneira de provar que você não é
mais um número no banco de dados de fornecedores...
Comunicar. Do latim comunicare,
o ato de fazer saber; participar; estabelecer ligação;
unir. Talvez esteja aí a chave para essa potencial
crise no relacionamento entre tradutor e agência.
Qual foi a última vez que você disse
clara e sinceramente ao seu gerente de projeto que,
infelizmente, o trabalho realizado durante o fim de
semana, precisa de uma revisão mais caprichada
pela equipe interna de revisores? Para quantos clientes
você ofereceu seu nome de usuário do
Messenger ou ICQ, ou outra forma de ser encontrado
imediatamente quando estiver on-line (com a linha
ocupada porque a Telemar ainda não instalou
o segundo o telefone)? Fax, e-mail, bip, celular:
são tantos os meios que podemos utilizar hoje
para realizar uma comunicação clara
entre agência e tradutor que não faz
sentido um pensar que o outro tinha falado uma coisa
quando ouviu não sei o quê de um terceiro,
que não estava dizendo lé com cré.
Se não falarmos a mesma língua, como
poderemos traduzi-la para outro idioma?
Comunicando-se claramente, você poderá
fazer saber a qualquer agência de tradução
para a qual trabalhe ou venha a trabalhar que, como
convidado para sentar à mesa e repartir o pão,
você se esforçará para não
cair em tentação e cometer um dos sete
pecados capitais do tradutor. Existem várias
listas do que não se deve fazer em um relacionamento
profissional, mas segue abaixo uma tentativa de estabelecer
algumas dessas falhas.
ORGULHO
O primeiro pecado o
impede de aceitar humildemente críticas ou
comentários sobre o trabalho entregue. O orgulhoso
não consegue aprender com seus próprios
erros; ele se enclausurou em uma torre de marfim e
acredita que está acima de qualquer técnico
ou principiante que ouse lhe enviar um texto corrigido.
Tende a repetir os mesmos erros até ficar isolado,
sem entender como outros conseguem viver sem a glória
de seus textos. Quando um feedback é bem recebido
e você demonstra ter compreendido, passando
a tomar cuidado para o erro não se repetir,
a voz do outro lado encontra eco e a comunicação
se estabelece.
GULA
O guloso nunca está
satisfeito com a quantidade de trabalho que se abarrota
em sua caixa postal. Ele é incapaz de dizer
não a todas as propostas que lhe são
oferecidas, apesar de o cliente deixar bem claro que
o trabalho é importante, sendo necessárias
tranqüilidade e atenção para realizá-lo.
Se a pressa não fosse inimiga da perfeição,
neste caso a gula o seria. Embora disponibilidade
seja um elemento crucial para um bom relacionamento
entre fornecedor e agência, a sinceridade também
é fundamental. E ninguém se sentirá
ofendido se você se recusar a entregar aquele
trabalho costumeiramente impecável se estiver
atolado com outras tarefas ou se tiver decidido descansar
por uma semana. Aqui a comunicação é
bem simples: "Desculpe, mas não posso."
LUXÚRIA
Ah, a luxúria...
O prazer libidinoso de se lambuzar com vários
clientes, de se permitir os prazeres carnais de aduladores
mil, ouvir voluptuosos elogios daquele que se apresentar
mais conquistador, se envolver na voluptuosidade de
ofertas tentadoras ao pé do ouvido e largar
o corpo cansado na libertinagem de e-mails lascivos.
Um milésimo de real a mais aqui, um texto com
palavras mais aprazíveis ali, e lá se
vai pelo ralo abaixo a aliança de um casamento
desfeito. Um relacionamento que se construiu com o
tempo, uma parceria em que confiança e estímulo
eram os pilares principais se dissolve sem um adeus,
um pedido de licença ou até mesmo um
agradecimento pelos anos passados juntos. Quando se
cansar dos atrativos primeiros ou perceber que a sacanagem
era de outra ordem, talvez queira voltar ao parceiro
de longa data. Para todos há uma segunda chance,
mas suas chances de ser bem acolhido na volta aumentam
quando você deixa claro o motivo da partida
e, se possível, uma previsão para a
data de retorno. Talvez seja mesmo o caso de sentar
e discutir a relação; quem sabe o outro
não está disposto a fazer concessões
por amor ao seu trabalho?
AVAREZA
Teimosia em se adaptar
às circunstâncias. A incapacidade de
aceitar um pouco menos hoje para ganhar mais amanhã.
As poucas palavras. Comunicação zero.
PREGUIÇA
A preguiça
é o pecado capital que mais exaspera qualquer
gerente tenso por cumprir um prazo ou desesperado
com os trabalhos que, sem pedir licença, adentram
sua caixa postal invariavelmente na sexta-feira às
quatro da tarde. O preguiçoso não tem
a menor idéia do que seja trabalhar no fim
de semana, jamais perdeu um feriado (prolongado, enforcado
ou inventado), cobra urgência urgentíssima
emergencial e desesperadora se a entrega do trabalho
estiver marcada para a manhã seguinte, e acha
que deadline já está morto mesmo e não
vale à pena ressuscitar. É claro que
todos precisamos de folga e que boa vontade não
deve se traduzir em abuso, mas fique certo de que
um esforço extra numa noite pode se transformar
em poder de barganha no futuro. Informe seus horários
de trabalho antecipadamente, programe junto com seu
gerente as férias merecidas, mas nunca o deixe
na mão quando tiver se comprometido. E, acima
de tudo, ao aceitar um pepino, fique à vontade
para depois solicitar que descasquem seu abacaxi.
INVEJA
Ela pode até
ser a arma dos incompetentes, mas quem nunca sentiu
inveja que atire a primeira pedra. O problema é
quando ela se torna um monstro de proporções
incontroláveis e passa a atrapalhar seu trabalho,
pois tudo com o que você consegue se preocupar
não diz respeito a você, mas ao outro.
A quantidade de palavras que o gerente presenteou
o outro tradutor é sempre maior que aquelas
que restaram para o invejoso. Seus prazos são
invariavelmente mais rígidos e apertados do
que dos demais fornecedores. E as tarifas pagas ao
resto do mundo são obviamente maiores que as
recebidas por aquele cujo olho é mais gordo
que sua capacidade de perceber os motivos de tais
discrepâncias. Anos de experiência, qualidade
do trabalho entregue, condições de pagamento
e tributação; muitos são os fatores
que afetam as diferenças concedidas. Em vez
de perder tempo roendo a si mesmo, o invejoso deveria
simplesmente entrar em contato com o gerente e perguntar
os motivos que o fazem distinguir um de outro fornecedor.
Ele pode acabar descobrindo que está em vantagem
sobre os demais, sem nem mesmo saber disso...
IRA
São tantos os
motivos que podem alimentar a ira de um tradutor para
com o gerente de projeto que se, ambos se deixassem
cair em pecado, talvez fosse melhor nem começar
a trabalhar juntos. Mais do que em qualquer outro
dos pecados mencionados acima, a comunicação
pode impedir que a cólera se faça presente
no relacionamento entre contratante e contratado.
Desde um e-mail com pontuação duvidosa
até uma chamada telefônica mal atendida,
inúmeras circunstâncias podem transformar
amor em ódio. Ouça pacientemente quando
levar uma bronca que fez por merecer, mas se julgar
a acusação injusta, tente ser o mais
racional possível, mostrando os pontos de sua
defesa e argumentando com riqueza de detalhes e provas
cabais. Mas se, por algum motivo, o estabelecimento
da fúria for inevitável, o ideal é
deixar o tempo curar as feridas abertas desta relação
tão delicada. Se achar conveniente, tente uma
aproximação mais tarde, quando os ânimos
estiverem mais tranqüilos e a raiva do momento
já tiver passado. Aquele que guarda rancores
é o maior prejudicado.
"Mas, vem cá!", você pode estar se perguntando, "Então
é só venha a nós o vosso reino
e nunca será feita a minha vontade?" Se
isso foi o que você conseguiu apreender das
linhas acima, das duas uma: não fui claro o
bastante e preciso urgentemente melhorar minha comunicação,
ou você simplesmente não percebeu que
cada uma das situações colocada acima
é um conselho de quem já esteve do lado
de lá e que hoje, à frente da Ccaps,
está sempre pensando em como fazer com que
agência e tradutor se entendam melhor e juntos
ofereçam ao mercado uma produção
cada dia mais qualificada e séria. Não
quis ser aqui a palmatória do mundo nem advogado
do diabo, mas se você teme o inferno da falta
de trabalho ou do serviço mal pago, pode querer
testar uma vida profissional sem pecados e se transformar
em um deus poderoso do ofício, soltando trovões
de qualidade como um tradu-Thor. Ou se manter inabalável
na rigidez de um trabalho bem feito, transformando-se
em uma tradu-Tora (com "o" aberto) sem deixar
jamais macularem sua madeira de lei. A escolha é
só sua.
Por fim, se conselho é a última coisa que você queria ouvir
e perdeu todo esse tempo lendo o artigo, resta-me
apenas pedir ajuda à Mary Schmich, uma jornalista
do Chicago Tribune, que em 1997 publicou em sua coluna
um texto que mais tarde fez sucesso em todo o mundo
pelas mãos de Baz Luhrmann. Peço desculpas
por deixar o texto no original, mas deixo para você
a tarefa de traduzi-lo com maestria. Essa que é
uma das canções mais belas que ouvi
nos últimos tempos termina assim:
Be careful whose advice you buy, but be patient with those who supply it. Advice
is a form of nostalgia. Dispensing it is a way of
fishing the past from the disposal, wiping it off,
painting over the ugly parts and recycling it for
more than it's worth.
Bom trabalho!
1) Apesar dos louváveis esforços da ABRATES, infelizmente,
não podemos dizer que já exista hoje
um padrão de certificação de
qualidade para o setor. A necessidade de se estabelecer
um ISO para a tradução, entretanto,
é discussão para outro longo artigo...
Read
more articles - Free!
E-mail
this article to your colleague!
Need
more translation jobs? Click here!
Translation
agencies are welcome to register here - Free!
Freelance
translators are welcome to register here - Free!
Subscribe
to TranslationDirectory.com newsletter - Free!
Take
part in TranslationDirectory.com poll - your voice counts!
|